Boletim Pela Vidda nº 29/30 - 1998

EDITORIAL: Um longo e difícil caminho a ser percorrido

DEPOIMENTO: Uma história de esperança e de luta contra o preconceito, por Roberta Salomone

ESPAÇO ABERTO: Diminuição de parceiros como estratégia de prevenção, por Cristina Pimenta, Euclides A. Castilho e equipe editorial do Pela Vidda

A Aids nos presídios do Brasil, por Sandra Mello Perin

A Luta Continua, por José Ricardo Lemos Fernandes

As Emoções do Vivendo

Hierarquização de riscos, por Alexandre do Valle

Prevenção nos equipamentos comunitários de práticas sexuais: uma realidade inexistente, por Ezio Távora e Marcelo Garcia

Projetos PELA VIDDA


Editorial

Um longo e difícil caminho a ser percorrido

Já se vão mais de quinze anos e as organizações fundadas em caráter emergencial para combater e controlar a epidemia de HIV/Aids, completam 8, 10, 12 anos de existência. Neste percurso, os desafios que orientaram a nossa fundação permanecem bastante vivos e ainda há muito a avançar quanto à cidadania das pessoas soropositivas, seu acesso a tratamento, e a qualidade da assistência. Um longo caminho vem sendo percorrido e os problemas assumem novas faces, se renovam e se complexificam.

Também, no que se refere à prevenção, o percurso é relativamente longo, mas o quadro é ainda bastante difícil. As iniciativas que procuram reduzir o número de infecções pelo HIV vêm acontecendo desde o início da epidemia com maior ou menor grau de sucesso. Já se construíram alguns consensos em torno do tema: mensagens de medo não ajudam; é importante criar programas específicos para cada público alvo; o trabalho de educação envolvendo membros da comunidade costuma ser mais efetivo; é fundamental que as iniciativas sejam contínuas e tantas outras premissas básicas. Evidentemente, estas premissas são úteis e legítimas por terem se consolidado na prática. Mas um trabalho efetivo de prevenção não se sustenta apenas nestas premissas. O crescimento continuado da epidemia em todos os grupos que ela atinge, não nos permite fechar os olhos para isso. Também não podemos fechar os olhos para o baixíssimo número de pessoas que adota medidas de prevenção eficazes.

A maioria das ações concentra seus esforços na divulgação de informações, e com isso consegue um sucesso relativo. Quase todo mundo tem acesso à informação, mas o impacto na mudança de comportamento fica aquém do esperado. As premissas básicas da prevenção se transformaram em lugares comuns, fórmulas pré-fabricadas que definem se um projeto está no caminho certo ou não. Meios e fins são importantes no processo de conter a epidemia de Aids, uma metodologia "correta" não isenta um projeto da necessidade de apresentar resultados; nem um objetivo nobre, como poupar vidas, é um salvo conduto para ações moralistas e segregadoras.

Está cada vez mais claro que o desenvolvimento de "tecnologias de prevenção" eficientes é ainda bastante urgente. Está claro também, que para tanto, é preciso experimentar continuamente, desenvolver iniciativas-piloto e até mesmo errar, mas é imprescindível tentar novas saídas, porque as que estão hoje disponíveis não nos levam muito longe.

A história e a gravidade da epidemia de Aids não deixam espaço para uma utopia de erradicação. Prevenir a Aids é, ao mesmo tempo, aprender a lidar com ela como um fato social que veio para ficar, pelo menos em nosso país.

O Boletim Pela Vidda lança seu olhar para a prevenção neste número, discutindo em quatro artigos diferentes este nosso desafio mais antigo. Não procuramos aqui apresentar as iniciativas bem sucedidas que sirvam como modelo, mas algumas discussões importantes para uma prática mais responsável nesta área.

O momento atual da prevenção da Aids nos remete ao mito de Sísifo, um conhecido personagem da mitologia grega. Ele recebeu como castigo dos deuses a obrigação de empurrar uma enorme pedra morro acima. A cada vez que chegava ao topo da montanha a pedra rolava novamente para baixo e Sísifo tinha que recomeçar o seu trabalho do ponto de partida. Embora haja uma finalidade evidente e, portanto, mais sentido na prevenção da Aids do que no castigo de Sísifo, ela permanece um desafio sem fim, um problema teoricamente insolúvel e uma prioridade absoluta.

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Depoimento

Uma história de esperança e de luta contra o preconceito

por Roberta Salomone

Luciene Maria de Oliveira, vinte e dois anos, mesmo sabendo que era soropositiva, decidiu levar uma gravidez até o final. A filha, que hoje tem dois anos, não tem o vírus e é a responsável por uma reviravolta na vida da mãe. Luciene não gosta de fazer planos e nem de sonhar, mas admite que deseja curtir cada momento ao lado de sua filha e lutar contra o preconceito que existe quando se fala em Aids.

Contaminação

"Pelos cálculos eu me contaminei entre novembro de 93 e fevereiro de 94, com M., um namorado com quem vivi durante um ano. Como eu era doadora de sangue, foi fácil descobrir. Em agosto de 94, fui pegar o exame e a médica me falou que eu estava com HIV. Ela disse que eu estava saudável, mas que precisava ter uma boa alimentação para não ter Aids. Aí pensei: ‘Só vou ter Aids se eu não me cuidar’. Então, eu nem liguei. Mas eu não entendia como poderia ter essa doença se não estava magra nem careca.

Em nenhum momento pensei em fazer uma loucura. Mas, como pensei que ia morrer, cheguei em casa e fui dividindo as minhas coisas, dando tudo para as minhas irmãs. Depois de um certo tempo vi que não era bem assim e pedi tudo de volta."

Gravidez e Culpa

"Quando fiquei grávida em fevereiro de 95, eu já sabia que tinha o vírus, mas o pai da criança, que foi meu namorado durante três anos, nunca soube. A gente sempre usava camisinha, mas uma vez rolou sem e ele não se contaminou. Eu não esperava ficar grávida e só fui descobrir quando já estava com quatro meses. A médica falou que eu, tendo a criança, teria no máximo cinco anos de vida e que deveria fazer um aborto porque a criança ia ficar órfã. Mas ela tinha os pais, os avós, os tios e até hoje tem! E resolvi ter minha filha.

Hoje ela tem dois anos, negativou e recebeu alta. Mas até isso acontecer, toda vez que ela tinha febre ou quando tossia, emagrecia, o que é normal de criança, eu achava que era da Aids. Era uma agonia ficar esperando o resultado dos exames que ela fazia. Para mim era muito triste ficar vendo a minha filha tirando sangue e sofrendo por minha culpa."

Família

"A minha família toda ficou sabendo que eu fui contaminada antes de ficar grávida. No início eles ficaram muito preocupados tentando me superproteger e quando eu estava de resguardo, não me deixavam fazer nada. A minha relação com eles não mudou, muito pelo contrário, vejo até que meus primos passaram a usar camisinha.

Ficou todo mundo com medo da minha filha ter o vírus também, mas a minha mãe nunca acreditou nisso. Para o meu pai, que morreu ano passado, eu só deveria ter filho depois de casar e foi meio difícil para ele aceitar a minha gravidez. Aí a minha mãe falou para ele que eu estava doente e que tinha que ter filho logo porque mais tarde não poderia."

Arrependimento

"Eu não tenho mais nenhum contato com o M. Quando eu contei para ele que estava com o vírus, ele disse: ‘Essas coisas acontecem. O que importa é que a gente está vivo’. Ele já sabia, não me contou nada e só mais tarde descobri que ele era bissexual. Eu tive outros relacionamentos na época em que estava com ele, mas era sempre de camisinha. Ele tinha uma situação econômica muito boa e eu vivia cheia de mordomias. Na época eu pensei: ‘Para que eu vou continuar morando em Caxias se posso ter uma vida muito melhor?’ E foi por isso que fui morar com ele. Acabei pagando um preço muito alto. O que ganhei com isso? Seria melhor eu ter ficado em casa, estudando, trabalhando. Foi uma lição. Se pudesse voltar atrás não faria nada disso."

Relacionamentos

"A maior dificuldade para mim, depois do contágio, é o relacionamento a dois. É difícil abrir o jogo para as pessoas. Eu tive um namorado depois que a minha filha nasceu que sabia de tudo e era uma pessoa maravilhosa, mas resolvi terminar. Ele era louco por criança e vivia dizendo que a gente ia ter filhos. Eu sabia que no dia que a gente casasse ele ia me cobrar isso e eu dizia que a gente poderia até adotar mas que era impossível ter. Depois, tive outro namorado que um dia jogou na minha cara que estava fazendo um favor de estar comigo...

Namorar um soropositivo é muito pior. Eles dizem: ‘Vamos sair logo. Você já não tem Aids mesmo? Então, vamos aproveitar porque a gente vai morrer logo…

Por tudo isso, eu penso em ficar sozinha e curtir a minha filha. Para mim é muito difícil e não está fazendo falta. Eu prefiro ter amigos de verdade.

Não vou deixar nunca de usar camisinha. Não escondo que tenho o vírus. Se a relação for para frente e só depois eu contar para o cara ele vai dizer que eu botei ele em risco. Depois se eu começar a gostar dele e ele descobrir, vai acabar me deixando por causa da mentira."

Futuro

"Não penso no futuro, prefiro viver o presente. Antes, eu fazia muitos planos, mas a vida me ensinou muitas coisas. Não quero fazer nenhum plano, já fiz muitos e me dei mal. Não adianta ficar sonhando.

Talvez um dia eu volte a estudar. É claro que imagino a minha filha grande e assim que ela começar a entender as coisas, vou contar tudo. Acho errado esconder até porque ela vai acabar sabendo por outros.

Não tenho medo da reação das pessoas que não sabem que eu sou soropositiva. Quem é meu amigo, vai continuar do meu lado. Eu tenho a minha família, o meu trabalho e me sustento. O resto, dane-se. Isso é assunto para um mês, depois as pessoas esquecem quando arrumam um assunto melhor."

Viver com Aids

"Com tudo isso que passei até hoje, minha vida mudou muito. Eu cresci, fiquei mais humilde, comecei a ter respeito pela vida. Aprendi que as coisas materiais não têm importância nenhuma.

As pessoas que como eu, têm o HIV, nunca devem perder a fé, a vontade de viver e a esperança da cura. O preconceito é da gente mesmo. E aí, não somos mais vítimas, somos os culpados. Por que os próprios soropositivos não assumem que têm Aids? Por que a gente tem medo? De que a gente tem vergonha? A gente não deve nada a ninguém, tem que assumir e falar: Eu tenho Aids."

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Espaço Aberto

Diminuição de parceiros como estratégia de prevenção

por Cristina Pimenta - Assessora Responsável pela Unidade de Prevenção da Coordenação Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde (CN-DST/AIDS/SPES/MS)

por Euclides A. Castilho - Presidente do Conselho Diretivo de Pesquisa (CN-DST/AIDS/SPES/MS)

A categoria de exposição sexual do HIV corresponde a cerca de 50% dos casos acumulados de Aids notificados ao Ministério da Saúde até fevereiro de 1997, e a 85% dos 28 milhões de casos conhecidos no mundo até 1996.

O risco de infecção pelo HIV para uma determinada pessoa por meio de uma relação sexual depende principalmente de dois fatores: o número de contatos sexuais com pessoas infectadas e a probabilidade de transmissão durante o ato sexual.

Sabe-se que o padrão de comportamento sexual das pessoas é um importante determinante do risco de infecção pelo HIV, especialmente quando refere-se a "settings" de exposição a múltiplas parcerias concomitantes, o que aumenta a chance de exposição a uma pessoa infectada, bem como a inúmeros fatores de risco, tais como outras doenças sexualmente transmissíveis, ulcerações e hemorragias genitais.

Em um estudo tipo corte "The San Francisco Men’s Health Study" com 1034 homens de 25 a 54 anos de idade, os autores encontraram uma taxa de soropositividade de 17,6% entre homossexuais e bissexuais masculinos que não tiveram relações com outros homens nos dois anos anteriores a sua participação no estudo; e entre os homens que tiveram mais de 50 parceiros, no mesmo período, a taxa de soropositividade foi de 70,8%. Outro estudo, na Universidade de Berkley na Califórnia, sobre o efeito de número de exposições ou parceiros como condição de risco de transmissão heterossexual do HIV, também demonstra que os padrões de múltiplas parcerias levam a uma maior probabilidade de infecção, portanto correspondendo a uma situação maior de risco para a infecção pelo HIV.

R. A. Royce, A. Senã, W. Cates e M. S. Cohen, do Departamento de Epidemiologia e Divisão de Doenças Infecciosas da Universidade da Carolina do Norte, publicaram no The New England Journal of Medicine, em 1997, alguns conceitos atuais sobre a transmissão sexual do HIV, onde colocam que a grande contribuição para a propagação da epidemia pode ser atribuída à associação da infecção primária com dois parâmetros que influenciam a disseminação do HIV, sendo estes: a alta taxa de infectividade e a alta rotatividade de parceiros, e em especial entre grupos de maior vulnerabilidade.

A questão da multiplicidade de parceiros sexuais deve ser vista não só sob a óptica da óbvia condição da propagação da epidemia do HIV. Deve-se analisar ainda, outras variáveis relacionadas ao ambiente ou "setting" que influenciam a taxa média de mudanças e parceiros sexuais. Alguns desses fatores são: a existência de bordéis ou zonas de prostituição que não são regulamentadas; a presença de drogas ou substâncias como cocaína e crack, que diminuem as chamadas inibições sexuais ou "limites" para comportamentos sexuais; saunas ou termas; a existência de normas sociais que determinam ou controlam o número de parceiros sexuais "permitidos" pelo grupo social.

Por outro lado, o tempo de existência da epidemia na comunidade, irá influenciar na prevalência do local da infecção do HIV e o número de pessoas com Aids. A primeira, influenciará na probabilidade de exposição por pessoa à infecção; e a segunda, na conscientização de risco de infecção percebida pela comunidade o que, conseqüentemente, irá determinar tanto o comportamento individual, como a resposta social da comunidade envolvida.

Estudos recentes demonstram não só que o número de parceiros influencia o risco de infecção pelo HIV, mas que o mais importante ainda, é a existência de multiplicidade de parceiros concomitantes. Portanto, se os "casais" ou parceiros sexuais adotassem o uso do preservativo de forma persistente, em todas as relações sexuais, por períodos de no mínimo 3 meses, o sexo desprotegido em relações paralelas ou concomitantes, seria reduzido no período mais crítico, o da infecção primária.

Considerando os aspectos epidemiológicos, biológicos e sociais da disseminação da epidemia do HIV, pode-se desenvolver ações integradas de Saúde Pública, que contemplem um entendimento da complexa interrelação com esses fatores para estimular: a diminuição de parceiros como prática de sexo seguro; a diminuição de múltiplos parceiros concomitantes, já que tem-se provas conclusivas de um maior risco para todos os parceiros; o uso de preservativos em todas as relações sexuais, onde a sorologia para o HIV do parceiro é desconhecida; e o não uso de preservativo em relações de extrema confiança, quando os parceiros não são infectados pelo HIV.

Referências Bibliográficas:

- Timothy D. Mastro and Isabelle de Vicenzi, 1996

- The San Francisco Men’s Health Study ,W. Winkelstein, et. al., 1987

- Universidade de Berkley, Califórnia, N.S. Padian, Shiboski & Jewell, 1990


pela equipe editorial do grupo Pela Vidda

Ao longo da história da epidemia da Aids, com raras exceções, chegamos a um sólido consenso. O uso de preservativo representa a real e a possível prevenção ao vírus HIV. Esse "consenso" traz em si uma lógica de prevenção universal carregado de simbolismo, de simplicidade, e sem avaliações comportamentais com base em morais alicerçadas num cotidiano permeado pelo valor da fidelidade/heterossexualidade. É com alguma preocupação que temos percebido uma discussão ainda embrionária, mas com perspectivas de avanço social que vale a pena discutir, a Diminuição de Parceiros como estratégia de prevenção.

Com base em inúmeros indicadores científicos, vários institutos de pesquisa indicam que a multiplicidade de parceiros é fator de risco para o contágio do HIV, alertando, por exemplo, que um homem que mantém relações com homens diferentes em um ano, tem mais possibilidades de manter relações com pessoas soropositivas e está mais sujeito a riscos.

Vale ressaltar que essa discussão trazida pelos Institutos Científicos é séria, mas ao que tudo indica, desconhece que a multiplicidade de parceiros é uma opção legítima de comportamento sexual e é exercida em todo o mundo quer por homossexual, heterossexual ou bissexual. Discutir esta questão como prevenção é dar um peso desnecessário a essa estratégia e reforçar antigos paradigmas que pareciam estar sendo superados, além de expor uma força perversa, que não a relação entre pessoas soropositivas e soronegativas é uma estratégia de prevenção que traduz em suas linhas uma política do "cada macaco no seu galho".

É preciso articular os indicadores de pesquisa a uma discussão no campo da cultura social e dos padrões de comportamento sexual tão diversos e heterogêneos. Caso contrário, a ilusão das estatísticas fechadas será nosso único parâmetro para consolidar as políticas de prevenção e a atenção às pessoas que vivem com Aids, enrijecendo uma proposta perigosa e autoritária que resgata uma lógica muito presente no início da Aids a culpados por terem adquirido o HIV por conta de um comportamento promíscuo e, muitas vezes, distante da lógica construída universalmente, que compreende sexualidade com bases na fidelidade e heterossexualidade.

O Grupo Pela Vidda/RJ assume a importância desse debate a nível nacional, mas percebe que aos poucos está se construindo uma retórica intransigente que acaba por inviabilizar a própria discussão, pois vem com força das estatísticas fechadas, arbitrando de forma imperiosa sobre comportamentos, opiniões e orientações sexuais. Assim, propomos um diálogo aberto junto aos órgãos de Governo, Sociedade Civil e Instituições Científicas sobre essa temática para que possamos construir um caminho responsável sem oferecer garantias frágeis baseadas no preservativo imaginário da fidelidade.

Referências Bibliográficas:

- A Ilusão das Estatísticas, Organização Jean Louis Besson / Tradução: Elim Sader - Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995

- A Retórica da Intransigência: Perversidade, Futilidade, Ameaça, Albert O. - Editora Com. das Leis, 1992

- Pecados Safados, Betti Brow - Editora Rosa dos Tempos, 1995

- A Aids no Brasil - História Social da Aids, Editora Relume Dumará, 1995

- Preservativo Masculino: Hoje mais necessário do que nunca, Brasília, Ministério da Saúde, 1997

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A Aids nos presídios do Brasil

por Sandra Mello Perin - Psicóloga do Hospital Penitenciário de Porto Alegre e do GAPA-RS

Já no inicio da epidemia da Aids começamos a observar a manifestação da infecção em pessoas que se encontravam confinadas, e tais casos apresentavam como principal determinante o uso de drogas injetáveis, e em menor expressão, a prática de relações sexuais sem proteção. Desde então, já prevíamos que este grupo social se tornaria preferencialmente vulnerável ao HIV, dada a alta freqüência de situações de risco e as condições institucionais bastante desfavoráveis à adoção de condutas mais seguras (uso de preservativos e uso de equipamentos descartáveis ou lavados corretamente para utilização de drogas injetáveis).

A previsão se confirmou e pouco tempo após, os primeiros casos já se registravam em várias pesquisas de prevalência. Os estudos realizados nos últimos anos, indicam-nos que o sistema prisional vem concentrando um grande número de patologias transmissíveis, principalmente as sexuais. Essa situação é conseqüência de vários fatores, que incluem tanto os decorrentes do processo de exclusão social de onde são provenientes os presos, como do não cumprimento da Lei de Execução Penal.

Em relação à infecção pelo HIV, diferentes estudos têm nos revelado um aumento das taxas de soropositividade especialmente entre presos, das regiões Sul e Sudeste. Embora não conheçamos o número de casos de Aids no Sistema Penitenciário brasileiro, sabe-se que esta patologia se constitui na principal causa de óbitos nos presídios de São Paulo e do Rio Grande do Sul. O ambiente prisional amplifica as condições de vulnerabilidade à infecção pelo HIV, intensificando a importância de pelo menos três fatores de transmissão: a alta prevalência de DSTs, a prática sexual desprotegida e o uso compartilhado de drogas endovenosas.

As conseqüências dessa situação se fazem sentir tanto no ambiente prisional como na comunidade extra-muros, com um custo social significativo, porém até o momento não adequadamente dimensionado. O aumento do sofrimento, da mortalidade, da orfandade, a diminuição da renda familiar, o aumento da discriminação, a dificuldade de reinserção social, o aumento do custo da assistência médica, são algumas das conseqüências mais visíveis desta condição original, esforços vigorosos devem ser dirigidos para análise da situação e para a conseqüente modificação deste quadro.

É importante levarmos em conta que pelo último censo penitenciário o homem fica encarcerado em média três anos e meio, o que nos informa o grau de mobilidade deste indivíduo. Geralmente a sociedade entende que depois de julgada esta pessoa vai ficar encarcerada por muitos anos, mas a própria lei de execuções penais permite o cumprimento parcial da pena, portanto este homem fica menos tempo confinado do que inicialmente foi determinado. Temos que considerar também a interação do mesmo com a sociedade através da visita de seus familiares, portanto o HIV pode circular de fora para dentro e de dentro para fora com grande facilidade.

Diante desta situação, fica clara a necessidade de intervenções que possibilitem acesso à informações e aos dispositivos que favoreçam práticas mais seguras (uso de preservativos e o não compartilhamento de agulhas e seringas ou sua adequada lavagem) no ambiente prisional. Precisamos que os gerentes prisionais e demais autoridades ligadas ao sistema carcerário admitam a existência de drogas no interior das Unidades e assim encontrarmos alternativas na implantação do programa de Redução de Danos, adaptado as condições deste ambiente. Necessitamos com urgência acabar com a compulsoriedade dos exames e torná-los viáveis aos presos que o desejarem, implantar o aconselhamento pré e pós teste anti-HIV, como são realizados nos Centros de Referência, e também acabarmos com a falta de sigilo, existente em algumas unidades prisionais do Brasil.

Rever o regimento interno de algumas penitenciárias que punem de forma rigorosa qualquer prática de relacionamento afetivo sexual que não seja entre pessoas de sexo diferente. Agindo assim, a instituição normatiza a libido deste ser humano, que além de confinado, se submete a mais esse excesso. Fazer valer o que preconiza o Ministério de Saúde em relação a distribuição de preservativos para populações confinadas: "...garantir o acesso a preservativos para toda a população carcerária de forma indistinta, rompendo o conceito do direito à atividade sexual restrito aos detentos que têm parceria fixa".

Melhorar as condições de atendimento à saúde dos presos que vivem com Aids, que inexiste em algumas Unidades e em outras é precaríssima, fazendo com que a qualidade de vida melhore e que os mesmos tenham acesso as novas terapias e o número de óbitos possa diminuir.

É importante considerarmos ainda, que o atual quadro político e econômico gera um quadro de desagregação social, onde muitas vezes ocorre o rompimento da convivência social. As pessoas confinadas, na sua maioria, pertencem a esse contexto de desagregação social e é necessário que façamos uma reflexão sobre o que sentimos por elas: "Sabem aquela pessoa que lhe assaltou na sinaleira, aquela que levou seu carro que estava estacionado logo ali, que entrou em seu apartamento, tomou sua família como refém e levou seus pertences, que possibilitou que uma bala perdida ferisse uma criança numa perseguição, que o intimida com uma faca dentro do ônibus, que se não fosse sua chegada providencial sua filha poderia ter sido estuprada? Essa é a população confinada, que vive nas prisões e para quem necessitamos, com urgência, realizar ações de prevenção às DST e Aids. Mas queremos isso, queremos que essa pessoa não se infecte? Geralmente o primeiro sentimento que surge dentro de nós é o de aprisionamento, se possível o mais longe e por um longo tempo. Queremos com urgência afastá-lo da convivência social e que ele sofra as penalidades da lei e que fique dentro do cárcere, para sempre."

Necessitamos mudar esse olhar, e refletir o que queremos para esse homem, pois enquanto a maior parte das pessoas estigmatizarem o homem preso, os projetos de prevenção e assistência serão mal desenhados, dissociados da realidade, mal executados, ineficazes, não diminuiremos o número de infecções e trataremos sem dignidade, o homem preso que vive com Aids. Precisamos que as ONGs desejem e assim exijam sua entrada nos presídios, que rompam a barreira que dificulta ou impede o acesso, imposto por muitas instituições. Que façam parcerias com as Secretarias que administram as unidades prisionais e implantem ou reforcem ações na área de prevenção e assistência. Acima de tudo, que auxiliem na preservação dos direitos humanos desse cidadão e que exerçam um controle social tão necessário nos cárceres do Brasil.

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A Luta Continua

por José Ricardo Lemos Fernandes - Movimento Patrocine a Vida/Santos (SP)

A luta pela defesa dos direitos humanos das pessoas que vivem com HIV e Aids exige uma constante doação individual e coletiva.

Estivemos ameaçados em 1997 pela falta de verbas para a compra dos antiretrovirais e, apesar de alguns indícios tranqüilizadores, não estamos absolutamente seguros quanto ao efetivo cumprimento do compromisso do governo federal de que em 1998 não faltarão medicamentos necessários.

Cabe a todos nós, tocados de alguma forma pela causa dos HIV positivos, soropositivos ou não, impedir que sejam adotadas medidas que afrontem os direitos humanos e o direito elementar à vida.

Na conferência de Lima pudemos observar que a nossa militância, a brasileira, está muito mais organizada do que os demais países latino-americanos. Tentamos cumprir, nessa ocasião, o papel do instigador, do alfinetador de "soropositivos latino-americanos", mostrando aos nossos irmãos latinos que a luta contra a Aids não se reduz atualmente à solidariedade, compaixão ou apoio psicológico ou material às vítimas. Não se pode falar mais em assistência em Aids sem que as medicações antiretrovirais estejam sendo distribuídas corretamente aos doentes de Aids. Felizmente, foi-se o tempo em que amor, carinho e camisinha eram os únicos remédios para enfrentar a pandemia. Temos que ter claro, agora, que as melhores armas são: amor, carinho, solidariedade, preservativos... e medicação antiretroviral!!!

Precisamos, em 98, estar atentos à uma outra questão: a adesão integral do tratamento antiretroviral, ou seja, está provado que as terapias combinadas diminuíram a mortalidade por Aids e aumentaram a qualidade de vida de muitos portadores da doença. Mas está provado também, que a adesão incorreta ao tratamento, que significa tomar remédios fora de hora e tomar doses erradas ou ingerir os medicamentos de forma inadequada (jejum, estômago cheio) resultam na falência desse tratamento, na multiplicação de efeitos colaterais, na perigosa geração de cepas de HIV resistentes e, por fim, na perda da qualidade de vida e no óbito.

Os cidadãos que usam as drogas antiretrovirais precisam ser esclarecidos exaustivamente sobre os perigos de não seguir as recomendações médicas adequadamente e, mais do que isso, precisamos estar de olhos abertos contra os médicos mal informados e que são incapazes de repassar aos seus pacientes as formas corretas de adesão ao tratamento.

O Movimento Patrocine a Vida - HIV Positivos da Baixada Santista lançou no dia quatro de fevereiro a Campanha de adesão integral ao tratamento antiretroviral (terapias combinadas) que organizará reuniões mensais com os palestrantes que vão privilegiar debates sobre o assunto. Além das reuniões, criamos dez tipos de cartazes diferentes que serão fartamente distribuídos por todos os serviços de assistência em DST/Aids na região e posteriormente, pretendemos divulgá-lo por todo o Brasil.

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As Emoções do Vivendo

O VII Encontro Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids, cujo título foi " Tenho Sim, Estou Vivendo!" aconteceu entre os dias 26 e 28 de setembro de 1997 no Hotel Glória, Rio de Janeiro e teve público recorde.

Com 732 inscrições prévias, o evento reuniu pessoas do Brasil inteiro para debater diversos temas como o viver com HIV e Aids, planos de saúde, tratamento e a vulnerabilidade da Aids na América Latina. E como prova desse sucesso, abaixo estão dois depoimentos de participantes do Vivendo.

"É difícil para mim encontrar palavras que definam os sentimentos e emoções que eu experimentei ao participar do VII Encontro Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids no Rio - inspirador, emocionante, enérgico, poderoso, maravilhoso, todas vêm à cabeça. Como coordenador internacional de uma rede que tem se esforçado para formar uma identidade e para sobreviver nos últimos anos, são encontros como esse que confirmam que nós temos que continuar a lutar, nós temos que continuar a procurar por soluções, nós temos que continuar a questionar e avaliar o que nós estamos fazendo, e nós temos que continuar o que nós estamos fazendo - pois nós estamos fazendo uma diferença!

O simples tamanho da conferência me surpreendeu, a honestidade e dedicação dos delegados me desarmou, e a energia e o espírito me impressionaram. A conferência (ou como prefiro chamá-la - a "experiência brasileira") me ensinou muito e também me fez dar conta que, apesar de termos experiências diferentes, sermos de diferentes culturas e falar línguas diferentes, na essência, as questões que as pessoas com HIV e Aids enfrentam e se esforçam para a aquiescer são de fato similares em todo o mundo - apenas as prioridades e as necessidades são diversas.

Questões como acesso a tratamento, direitos humanos, sexualidade, identidade, inclusividade versus exclusividade, infectados e afetados, capacitação e a lista continua, são discutidas em quase todas conferências talvez em outra linguagem, ou com um outro senso de urgência ou com uma maior ou menor prioridade. O importante para mim, entretanto, é que essas discussões tenham lugar, e que elas não sejam baseadas exclusivamente na emoção - pois isso é contra produtivo e representa a perda de uma energia tão necessária.

A questão "viver com HIV e Aids" certamente ainda precisa de muita discussão e compreensão - e o termo "viver com HIV" surgiu porque os primeiros ativistas em Aids queriam se livrar das referências de "vítimas de Aids" e de " pacientes de Aids" que eram tão comuns. Era na época também apropriado e fortalecedor afirmar que as pessoas com HIV e Aids estavam vivendo com a doença, tomando iniciativas e se encarregando da sua própria doença. Entretanto, na medida em que as pessoas com HIV vivem mais, mais e mais pessoas se tornam infectadas, e isso se torna mais "aceitável" e o fato de que isso impacta as famílias e os entes queridos, é verdadeiramente difícil e desafiador dar o direito autoral desse termo apenas às pessoas com HIV/Aids. Por conseguinte, isso nos força a questionar porque somos tão apegados à esse termo, e o que estamos tentando conseguir ao querer ter o direito autoral desse termo, mas ao mesmo tempo, isso não nos deprecia pela razão que pessoas com HIV/Aids têm realmente algo a contribuir, definitivamente necessitam de "seu" espaço apropriado, e também necessitam se adaptar a uma epidemia mutante.

Há uma coisa que eu "aprecio" acerca do HIV, e é o fato de que ele é um professor muito exigente - ele nos ensina sobre a vida, sobre as pessoas, sobre o querer, sobre o compreender, sobre o comprometimento, sobre o respeito e sobre empatia - e as nossas discussões acerca de questões difíceis e emocionais que têm que incluir tudo o que foi dito acima se nós quisermos dar uma verdadeira contribuição e aprender e apreciar as muitas lições que o HIV tem para nos ensinar!

Obrigada Rio. Foi uma honra e foi maravilhoso."

Shaun Mellors - Coordenador Internacional da Rede Global de Pessoas HIV Positiva (GNP+)


"A primeira impressão que tive do VII Encontro, é que neste ano, os assuntos estavam mais técnicos e a emoção parecia estar em segundo plano. Aos poucos, fui me dando conta que, na verdade, no Vivendo do ano passado estávamos sob a euforia do chamado coquetel e que tudo indicava que a cura ou a cronificação da doença estavam próximos, como prenunciavam as revistas e jornais da época. Este ano, ao contrário, vivemos a ‘ressaca do coquetel’, quando sabemos que a terapia combinada é um grande avanço no tratamento, mas ainda estamos longe da cura e amigos nossos continuam adoecendo e morrendo de Aids. Ainda não estamos a 1% da cura, no entanto, valeu novamente para conhecer e reencontrar muita gente interessante, que vive e convive com HIV/Aids, e para relembrar a todos que viver com HIV/Aids é ruim, mas ainda temos que nos unir e lutar para melhorar as condições de vida das pessoas que assim vivem e acabar com o preconceito e mostrar que viver com dignidade é o nosso grande objetivo."

Carlinhos, GAPA/RS

Os Grupos Pela Vidda/RJ e Niterói já iniciaram as atividades para o VIII Vivendo e a III Jornada de Vacinas que acontecerá em outubro de 1998 no Hotel Glória, Rio de Janeiro.

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Hierarquização de riscos

por Alexandre do Valle

Existem muitas práticas sexuais que não oferecem risco de transmissão do HIV e o conjunto destas práticas é chamado sexo seguro, ou sexo mais seguro. Hoje em dia, nas grandes cidades, praticamente todo mundo tem claro que, durante a relação sexual, corre risco e que conta com diversas medidas práticas que podem reduzi-lo drasticamente. No entanto, é mínima a quantidade de pessoas que aderem incondicionalmente a estas medidas.

O aparente consenso sobre o que fazer para evitar a transmissão do HIV durante o sexo - o clássico "assim pega/assim não pega", que todos sabemos de cor - ganha um caráter caótico quando olhamos para o que, de fato, é feito para reduzir o risco de transmissão do HIV. As práticas, ao contrário dos discursos, estão longe de ser uniformes: cada cabeça, uma sentença; cada corpo, uma estratégia.

As campanhas de prevenção têm sido relativamente bem sucedidas na sua padronização da descrição de sexo seguro e, aparentemente, míopes na consideração do imenso mar de contradições e jogos que é a prática sexual de cada um de nós. A diversidade é uma marca não apenas quando comparamos uma pessoa com outra, mas quando também quando comparamos atitudes da mesma pessoa em momento diferentes e com parceiros diferentes. O fato de uma pessoa reconhecer o risco de infecção pelo HIV, não implica diretamente em tomar as medidas adequadas de prevenção. Quem se previne, não se previne o tempo todo da mesma maneira, nem com a mesma efetividade.

Algumas pessoas usam preservativo para o sexo vaginal sempre e nunca no sexo oral, outras usam preservativo no primeiro encontro, mas não no quarto ou quinto, algumas profissionais usam com seus clientes e nunca com seus namorados e outros não usam nunca, mas evitam o alicate da manicure.

A lógica que orienta estas escolhas é peculiar a cada um e cada situação, embora a informação e os riscos sejam universais. Com base nas informações que estão amplamente disponíveis, cada um faz o que bem entende, e o faz de acordo com as suas crenças, desejos, medos...

De forma deliberada ou não, cada um constrói a sua estratégia e estabelece as suas condições de negociação pessoal com o risco. Cada um cria a sua própria hierarquia de riscos. Nestas hierarquias subjetivas, ir à manicure pode ser mais perigoso do que transar sem camisinha, o sexo oral pode não representar qualquer risco e gente conhecida não tem Aids.

O desafio para as iniciativas de prevenção é estar presente nesta negociação pessoal e não só na negociação com o outro (exaustivamente enfocada em quase todas as campanhas). É evidente que para uma relação de risco ocorrer são necessárias, no mínimo, duas pessoas, mas o nível de risco que se assume, depende da hierarquia de cada um, que se estabelece muito antes da negociação com o parceiro.

O papel de campanhas desta perspectiva, não é impor uma prática universal, mas oferecer um leque de opções, ressaltando a importância e as conseqüências destas opções. O uso do verbo no imperativo nas campanhas informativas enfatiza a idéia de sexo seguro como um pacote que se compra fechado, ou não se compra.

Quem lê, escuta ou vê uma campanha vai pensar sobre ela e tirar suas próprias conclusões e, a partir destas, fazer suas escolhas. Entender a prática de sexo seguro como uma escolha que se atualiza a cada relação e se baseia numa hierarquia pessoal de riscos é um passo importante para que as ações de prevenção possam se aproximar mais dos sujeitos para os quais se dirigem.

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Prevenção nos equipamentos comunitários de práticas sexuais: uma realidade inexistente

por Ezio Távora e Marcelo Garcia

A cultura homossexual construiu estratégias particulares e muito peculiares de prazer, entre elas o encontro sexual em saunas e cinemas pornográficos. Esses espaços passaremos a chamar equipamentos comunitários de práticas sexuais.

Esses equipamentos possuem uma lógica muito própria onde a busca do prazer desconhece os limites, as regras e a moral construída pela sociedade heterossexual. A prevenção, entretanto, ignora esses equipamentos e na medida em que não é oferecida aos seus usuários, torna-os extremamente vulneráveis. Não estamos aqui criticando esses espaços, muito pelo contrário, reconhecemos o seu papel legítimo e o fato de que, para muitos, representam o único espaço possível de prazer e atividade sexual.

Fizemos um corte e resolvemos pesquisar dois desses equipamentos, muito conhecidos na cidade do Rio de Janeiro: um cinema de "alta rotatividade" no centro e uma sauna masculina em um bairro nobre. Em ambos os lugares, os gerentes admitem que não é política desses estabelecimentos assumir a responsabilidade de uma prática explícita de prevenção às DST e Aids, mas acolhem de muito bom grado as iniciativas externas pontuais que ocorrem vez por outra, sejam advindas de ONGs, sejam de órgãos públicos de saúde.

O cinema tem atualmente uma freqüência diária de cerca de 500 pessoas por dia e de 300 pessoas por dia durante os finais de semana e feriados. Deve-se observar que esse equipamento é local de trabalho para muitos profissionais do sexo que chegam a freqüentá-lo diariamente, bem como outros clientes que chegam a permanecer no local desde sua abertura às 10h até às 21h. Segundo o gerente do cinema, a freqüência do estabelecimento diminuiu em 50% desde 1994, quando chegava a ter uma média superior à 1.000 pessoas por dia durante os dias úteis. Ironicamente, o gerente do cinema disse jamais ter recebido a visita de órgãos da saúde pública, com exceção da representante de órgão municipal de saúde que fez no local pesquisa e prevenção há cerca de um ano, e dos representantes da Sucam, que de vez em quando "vêm atrás de ratos"...

Curiosamente, constatamos que o lixo recolhido diariamente desses locais vem a ser fonte segura de observação das práticas de prevenção, já que ao longo dos últimos anos, como observam os gerentes dos estabelecimentos, é cada vez menor o número de preservativos recolhidos ao fim do dia pelos faxineiros. O gerente da sauna chega a afirmar que os seus empregados recolhem "menos de 10% do que se esperava recolher diariamente por conta do movimento". Ele observa ainda que, durante as festas e o carnaval, o recolhimento de preservativos usados é menor, particularmente quando há um considerável aumento de turistas estrangeiros dentre os clientes daquela sauna.

Não há uma política continuada de prevenção nos equipamentos comunitários de práticas sexuais. O Estado e a sociedade civil ignoram e, reprimi-los não é uma estratégia eficiente de prevenção. Não reconhecer sua função de norteador das políticas de prevenção é uma atitude hipócrita e inconseqüente. O Estado finge não conhecer a existência desses equipamentos ou ao admitir a sua existência, acena com um discurso moralista pregando o fechamento desse equipamentos, como se não soubesse que surgiriam outros em iguais condições.

Em termos objetivos, em apenas um dentre as dezenas de equipamentos comunitários de prática sexuais disponíveis na cidade, no cinema visitado, são pelo menos 3.100 usuários por semana, num total de 13.020 usuários por mês, o que equivale a 156.240 usuários por ano. Não podemos aceitar que essa população altamente vulnerável continue a ser ignorada pelas políticas públicas de prevenção. As políticas atuais deveriam ser revistas e reconsideradas para que se reconheça como fato a ampla existência da prática de múltiplos parceiros sexuais e que esse público passe a ser objeto de estratégias contextualizadas e eficientes de prevenção.

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Projetos PELA VIDDA

Homens II

Neste ano, o Grupo Pela Vida/RJ estará implementando uma nova fase do projeto Homens, que tem como objetivo informar sobre questões básicas relacionadas ao HIV/Aids e saúde reprodutiva, através de palestras voltadas para homens com práticas heterossexuais. As intervenções serão realizadas em unidades públicas de saúde e nos locais de trabalho, procurando assim dinamizar o espaço com debates que considerem as questões de gênero e sócio-culturais envolvidas na adoção de práticas sexuais seguras para o HIV. Como o projeto privilegia os homens, a equipe treinada será composta por interventores do sexo masculino. O projeto utilizará material didático desenvolvido especificamente para esta população.

Viva Voz

O projeto Viva Voz tem o objetivo de estimular a adoção de práticas preventivas para o HIV, através da participação de pessoas vivendo com HIV e Aids em atividades de educação e comunicação. Ele é motivado pela grande demanda de palestras recebidas pelo Grupo Pela Vidda, que pretende, com a implementação do projeto, dinamizar e ampliar o atendimento à mesma. Deste modo, enfatiza-se a estratégia de associar as atividades de apoio com o trabalho preventivo. A equipe de palestrantes é constituída junto aos participantes do Grupo, o que possibilita o engajamento das pessoas vivendo com HIV e Aids na prevenção.

Além do trabalho habitual de capacitação dos voluntários e do atendimento às solicitações de palestras da comunidade, tivemos há dois anos um projeto específico para esta atividade. Esta experiência mostrou-nos que o privilégio ao ponto de vista das pessoas diretamente afetadas pela epidemia pode representar um diferencial importante no trabalho junto à população, na medida em que resulta em uma desmistificação do viver com HIV e Aids. Revelou-se ainda, um grande interesse daqueles que freqüentam o Grupo em capacitarem-se para a participação em trabalhos de prevenção. Um último ensinamento que incorporamos liga-se à percepção que tivemos da diversidade dos públicos-alvo, o que nos leva a priorizar no projeto atual a especificidade na abordagem a cada um deles.

Diante destes fatos, o Grupo Pela Vidda se propõe, a partir de agora, a instituir uma estrutura de gerenciamento das atividades de palestra que possibilite um melhor aproveitamento do interesse dos voluntários em engajarem-se no trabalho, bem como o atendimento à demanda da população por mais e diferenciada informação.

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